
A 2ª edição do projeto “Conversas de Porão” do Antiquário Hamburgo Velho acontece neste sábado (11/10) das 15h-17h.
O assunto da vez nessa tarde de conversas será a moda e suas transformações desde a chegada dos imigrantes alemães aqui na nossa região até 1950.
Vem conosco analisar sobre “O Alinhavo que Costurou a Nossa História.”
Confira os tópicos que abordaremos:
1) Comparação de trajes típicos do Hunsruch (Alemanha) com fotos da Colônia Alemã no RS em diferentes décadas
2) Roupas dos imigrantes na viagem ao Brasil
3) Mudança de mundos (Velho e Novo Mundo)
4) Da Europa ao RS, passando pelo RJ, Rio Grande, POA e São Leopoldo
5) Início com quase nada, mas com máquina de costura portátil
6) Adversidades que exigiram mudanças de estilo de vida
7) Roupas semanais e dominicais
8) Novo século, novas modas
9) As guerras e a simplificação das vestes
10) Após Farrapos, cresce o luxo
11) Comércio, Indústria e Importação
12) Fotografia muda a perspectiva
13) Modistas e revistas
14) Vida social com cinema, teatro, praia e clubes
15) O calçado do Vale ganha o mundo
Te esperamos, entrada franca!
Av. General Daltro Filho n°810, bairro Hamburgo Velho, NH/RS.
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CONVERSA DE PORÃO, EDIÇÃO II, 2025 PROMOVIDA PELO ANTIQUÁRIO HAMBURGO VELHO MATERIAL SELECIONADO E APRESENTADO POR NEUSA STOFFEL
ASSUNTO DA II CONVERSA DE PORÃO: O ALINHAVO QUE COSTUROU NOSSA HISTÓRIA
ROTEIRO PRÉ DIVULGADO
O ALINHAVO QUE COSTUROU NOSSA HISTÓRIA
- Comparação de trajes típicos do Hunsruch (Alemanha) com fotos da Colônia Alemã no RS em diferentes décadas
- Roupas dos imigrantes na viagem ao Brasil
- Mudança de mundos (Velho e Novo Mundo)
- Da Europa ao RS, passando pelo RJ, Rio Grande, POA e São Leopoldo
- Início com quase nada, mas com máquina de costura portátil
- Adversidades que exigiram mudanças de estilo de vida
- Roupas semanais e dominicais
- Novo século, novas modas
- As guerras e a simplificação das vestes
- Após Farrapos, cresce o luxo
- Comércio, Indústria e Importação
- Fotografia muda a perspectiva
- Modistas e revistas
- Vida social com cinema, teatro, praia e clubes
- O calçado do Vale ganha o mundo
Montada esta foto do primeiro quebra-cabeças deste Projeto Cultural, brinde da primeira CONVERSAS DE PORÃO, O que chamou a atenção naquela foto?
Resposta: as diferentes vestimentas nas duas famílias reunidas para uma festa familiar, enquanto tomavam chimarrão em cuia do tipo uruguaia.
É demonstração de que tivemos períodos no século passado em que a moda foi uma grande mistura, diferentes estilos e adereços em uso simultâneo. Homens aqui presentes relembram o uso de gomas para cabelo e bigodes, marca Glostora, importantes por gerações.
Analisando a foto do quebra-cabeças, outra impressão foi unânime: os homens estão mais elegantes do que as mulheres.
Relembramos que, desde a chegada dos imigrantes alemães ao Vale do Sinos – RS, como era dispendioso vestir-se bem, o vestuário do homem era mais importante. Ele representava a família. Ele circulava a negócios, enquanto a mulher ficava em casa. Então, sendo exigida uma maior despesa, ela era investida nas roupas masculina da família. Em segundo lugar, vestiam-se bem as filhas em idade de casar-se.
Contextualizamos de onde vieram os primeiros imigrantes e as roupas típicas da região de origem
Chega ao Brasil uma leva de imigrantes antes da independência. Esta era de ascendência suíça e não vem ao RS, estabelecendo-se onde hoje é Novo Friburgo -RJ. Logo após a independência, os imigrantes contratados para imigrarem sob as bênçãos da Imperatriz Leopoldina (motivo do nome de São Leopoldo) que virão para o sul do Brasil são da região do Hunsruch, mais perto da fronteira francesa, região de disputa de território e de muitas batalhas que impediram o progresso e confundiram os costumes, pela nacionalidade que mudava conforme quem vencera as batalhas, ora francesa, ora alemã.
A roupa típica da região do Hunsruch demonstra essa mistura.
Ainda antes da fotografia, há gravuras que nos permitem analisar as roupas usadas no translado Alemanha/Brasil.
Comparamos trajes masculinos do Hunsruch do início de 1800 e vimos muita semelhança com roupas masculinas usadas aqui até início de 1900.
São trajes escuros, pesados, casacas longas, colarinhos duros, fitas engomadas no pescoço e ainda barbas longas, bigodes fartos, cabelos não curtos e costeletas aparadas ao longo da face. As mulheres em vestidos longos, cada vez menos largos para facilitar o andar a cavalo em selas femininas que põem ambas as pernas de um lado do animal.
Ainda contextualizando, entendemos a rota que trouxe os primeiros imigrantes ao sul do Brasil:
Após 3 meses nos veleiros, aportam para quarentena e documentação no RJ(capital insalubre e mal afamada na Europa), seguem para Rio Grande e Pelotas (cidades já ‘afrancesadas’), conhecem a cosmopolita Porto Alegre em desenvolvimento e chegam a São Leopoldo, uma vila cheia de preconceitos que os recebe quase sem escolha. Aí esperam as ‘terras prometidas’ e mínimos recursos que atrasam e são aquém do prometido. Refletimos sobre a carga que trouxeram, seus baús e trouxas molhados no mar. Quanto ao vestuário de quem já sai tão pobre da Europa, fica em desajuste ao árduo trabalho familiar, às moradias temporárias que eram meros acampamentos e cabanas toscas, ao clima difícil para suas peles tão claras, além dos insetos e peçonhentos que assustavam as famílias.
Surge um vestir improvisado e ditado pela necessidade e pobreza.
Importante: Na cidade portuária da Alemanha, antes do embarque, os imigrantes renunciam à cidadania alemã, estratégia para evitar seu retorno. Crianças nascidas no mar ganham nacionalidade do navio em que embarcaram, maioria holandeses. Esses imigrantes são, por isso, oficialmente ‘novos brasileiros’, mas jamais tratados assim. Um povo a reescrever a própria linhagem, que começa com muitos mortos ao mar.
Certamente nem todos são extremamente pobres, mas essa é a maioria. E vêm pós Napoleão, que mudou o mundo e os conceitos sociais. Os mais jovens ouviram o eco de Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
A análise da linha do tempo que segue permite analisar as mudanças na moda e nos costumes dentro do contexto da História.
De 1803 ao 1815 : guerras napoleônicas 1822 : Independência do Brasil 1825 : Chegada dos primeiros imigrantes alemães oficialmente instalados no RS 1835-1845 : Guerra dos Farrapos 1873-1874: Revolva dos Muckers 1889 : Proclamação da República 1914-1918 : Primeira Guerra Mundial 1923 : revolta civil dos Maragatos x Chimangos 1939-1945 : Segunda Guerra Mundial
1826 : registro da primeira fotografia na Europa 1853 : registro da primeira fotografia no RS, com estúdios e fotógrafos itinerantes 1899 : inaugurado o primeiro hotel na praia gaúcha de Tramanday (moda praia)
Comentário interessante: Os imigrantes saem da Europa pobre, passam pela Europa rica, portuária.
A maioria jamais vivera em cidade grande, exceto de passagem até o embarque. Mas ficam nos portos europeus por meses e ouvem muitas notícias do mundo. Depois eles passam pelo nosso Rio de Janeiro, um caldeirão urbano da época. Passam por Rio Grande e Pelotas, onde reparam na moda e alguns costumes que reconhecem, tudo vendo sem falar ou entender a língua. Vindo para Porto Alegre, descobrem uma cidade muito organizada para a época. Porém seu destino é navegar por rios até São Leopoldo, seu Novo Mundo. Apenas um lado do Rio dos Sinos é para eles, mata fechada a perder e vista. E vão abrir suas Picadas, cada uma um lote mal definido a ser explorado com várias restrições do governo.
As dificuldades são enormes, especialmente nos primeiros 6 anos
Uma foto improvisada mostra a roupa da família, provavelmente costurada à mão, para o dia a dia dentro das picadas.
Nas fotos de coletivos, observamos mudanças, especialmente nos homens mais jovens: corte de cabelos e barbas mais curtos, colarinhos menos apertados, ternos mais leves e encurtando.
Enfrentando doenças, cabeça e pescoço de crianças e idosos eram partes do corpo que recebiam confecções especiais. Acervo do Antiquário Hamburgo Velho tinha muitas destas peças variadas e bem conservadas.
Analisamos do acervo do Antiquário Hamburgo Velho: criados-mudo para ternos, cabides para colarinhos e chapéus, bengalas
Quem une as picadas e permite a sobrevivência?
As casas comerciais e os mascates.
Esses empórios se distribuem pela região, um lugar que vendia o básico de que os imigrantes necessitavam. E, à medida que eles começaram a ter excedentes de suas lavouras, as ‘vendas’ e ‘armazéns’, como eram chamadas estas casas comerciais passaram a fazer o intercâmbio entre eles. Tudo que poderia ser negociado era prioridade, até em detrimento do consumo familiar. Pobreza contingenciada.
Este costume de economizar ao máximo e nada despediçar acompanha a herança social destas famílias. A neta de um proprietário bem sucedido de uma famosa gráfica de São Leopoldo comenta que, em casa do avô, ela comia até o ‘pavio do aipim’, pois nada poderia sobrar no prato. Numa região onde faltava de tudo, os artesãos capazes começaram a aumentar suas rendas com produção de chapéus, vimes, móveis, etc.
Os tecidos e aviamentos de costura estão expostos em todas as casas comerciais, vendidas a metro. E não se observam roupas prontas à venda. E soubemos que a encomenda de máquinas de costura (olhamos folheto em espanhol, acervo do Antiquário Hamburgo Velho), geralmente importadas via Uruguai, era um sonho acalentado.
Os tecidos poderiam ser encomendados aos mascates, mas pouca escolha tinham as mulheres. São frequentes as fotos onde o mesmo padrão de tecido veste vários familiares, em modelitos iguais ou não.
São deste tempo muitas golas, punhos e blusas curtas de sobreposição. Assim, o mesmo vestido básico se transformaria para eventos ou filhas diferentes.
As calças masculinas e dos meninos encurta e o povo segue frequentemente descalço.
As Picadas têm ligação por caminhos enlameados, muitas vezes com capim alto no trajeto. Não chegar de calça suja era importante, o que afeta a moda das colônias.
A foto de uma grande equipe que abriria uma estrada por mato fechado provoca CONVERSAS DE PORÃO. Roupas leves, chapéus de palha e nenhum homem calçado.
Dez anos de Guerra dos Farrapos e o impacto nas Colônias dos Imigrantes
Guerra nunca é um evento feliz. Muitas mortes e anos difíceis. Afinal, o Rio Grande do Sul ousou se armar para ser um país novo, separado do Brasil! Num estado dividido, num país com apoio enfraquecido ao Império que atraiu os imigrantes, as famílias ainda esperando benefícios e documentação de terras prometidos e adiados, as incertezas eram gigantescas. Porém, surgiam oportunidades comerciais e industriais que poderiam ser aproveitadas por quem já se comunicava e transitava na região. Até mesmo por quem tinha filhos soldados.
Produzir o que o ‘novo país’ precisasse era estimulado. Produzir o que as tropas, de ambos os lados, tivessem necessidade era bom negócio. Transportar de tudo através dos rios era arriscado, mas importante. Comprar e vender impulsiona o comércio de quem aceita riscos.
Historiadores analisam contabilidade dos negócios do Vale do Sinos e não deixam dúvidas. Esse período crítico foi positivo para muitas famílias de origem alemã. Saltos financeiros impressionam até os historiadores.
Derrotados os farrapos, defendido o Império, a região prospera. A necessidade não olhou as origens e os preconceitos cederam à competência.
A moda pós Farrapos
A sociedade não queria ser confundida com os guerreiros aos farrapos. Pelo contrário, queria mostrar luxo e apresentar as grandes diferenças financeiras entre os de origem alemã que enriqueceram. Queriam casamentos e alianças comerciais vantajosas. As raras fotografias e as cartas atestam uma classe emergente nas proximidades da capital gaúcha.
Essa nova classe social constrói clubes e se articula em sociedades esportivas e culturais, como as de ginástica, de tiro, canto, etc. E cada uma tem suas reuniões onde estar na moda é predicativo de sucesso. A moda masculina, mesmo neste novo século, parece ainda evoluir primeiro.
Conversa de Porão: o que provoca a mudança das cores escuras por claras, o que começa entre as moças?
Inglaterra tecelã tem livre comércio com o Brasil. Tecelagens brasileiras despontam. Cor clara declara ‘vivo na cidade, trabalho não braçal, tenho empregados’.
Escolas religiosas trazem uniformes com blusas claras. Diferente dos primeiros tempos da imigração, onde o luto era fechado e famílias tinham pouco tempo até viver outro enlutamento. Mas algumas cores carregam simbologismo, que se respeitava.
Roupas de domingo e roupas de trabalho
Crianças e jovens em escolas maiores precisam de melhores trajes ou de uniformes. Internatos exigem enxoval apropriado. Missa e culto são compromisso semanal e oportunidade de apresentar-se bem à sociedade. O trabalho em escritórios e administração pública provoca mudanças. Empregados em indústrias têm exigências específicas no vestir-se. Cidades ganham calçadas para andar sem sujar vestidos. E as festas não são mais raras. Também os passeios em praças e visitas a parentes distantes.
Fotos de carnaval, bailes de primavera e de debutantes, quermesses e footing dominical da metade do século até o pós segunda guerra
Kerb
Carnaval em clube
Festa da Primavera
Moda praia
Comentamos as diferenças que se iam observando nesta CONVERSA DE PORÃO. E os idosos podem ser vistos com roupas que não seguiram os novos padrões, seguindo arcaicos, mas respeitados. A chapelaria de época mereceria uma abordagem comparativa por si só.
A fotografia muda as perspectivas
Agora fotógrafos agendam fotos, individuais ou da família, indo às casas, até as distantes. Ou em estúdios que impressionam. Jornais ganham fotos. A publicidade vai ditar as novidades da moda. Cartões postais com fotos chegam e vão da Europa, dos EUA, dos Pampas. A moda torna-se mais alegre, com flores nas lapelas e chapéus, meias coloridas, ainda que discretas, casacos de frio nem sempre escuros.
O novo século se vê nas fotos, nas revistas e nos impressos
Sombrinhas, luvas, meias, chapéus, lenços, bolsas.
O fomento à importação de quase tudo. Portos uruguaios são vizinhos que garantem entregas rápidas para a época, aceitando encomendas a prazo. Casas de comércio de importados distribuem para as mais distantes colônias. Vendas a crédito facilitam tudo isso.
As modistas são profissão reconhecida. Revistas coloridas, muitas importadas, são tesouros femininos. A literatura passa a ter longas e detalhadas descrições das roupas dos personagens.
E agora que as saias encurtam, os sapatos precisam de luxo. É admirável que o vale de imigrantes descalços vai calçar o mundo moderno no pós guerra, exportando estilo e qualidade ainda inigualáveis, segundo especialistas.
Ampla exposição do acervo do Antiquário Hamburgo Velho permitiu a observação sensorial. Tocar tecidos e roupas de época, ver detalhes de véu de noiva de mais de 100 anos, observar toucas de dormir e chapéus, impressionar-se com meias de seda em caixas originais, lenços de seda bordados, grampos para fixar chapéus, embalagens de importados… E assustar-se com as cinturas das roupas de um século que ainda brilha. Foram lembrados costumes ‘invisíveis’, como usar barbante na cintura abaixo das roupas para manter abdômem tenso e firme.
Finalmente, observamos uma coleção de aventais. Eram um ‘vitrine’ sutil das habilidades femininas, usados em festas de igreja.
E encerramos analisando 2 bonecas de pano datadas da época da chegada dos imigrantes e comparadas com outras de 1930. Suas roupas bem conservadas testemunharam a abordagem desta CONVERSA DE PORÃO, segunda edição 2025.