Conversas de Porão

Primeira edição do evento Conversas de Porão

Porão é endereço, mas também remete a ‘’outros porões”: porão de guardados não inúteis, porão de memórias, porões da alma, porão das saudades, porão do subconsciente, porão de depósitos, etc.

Cada edição terá um assunto determinado, acervo de antiguidades relacionadas ao tema, fotos e documentos quando possível e, principalmente, convidados de 3 tipos:

1️⃣IDOSOS COM MEMÓRIAS QUE QUEREMOS REGISTAR
2️⃣ESTUDIOSOS DO TEMA DA EDIÇÃO
3️⃣INTERESSADOS AMIGOS DA HISTÓRIA

Tema da primeira reunião:

O GAÚCHO NA COLÔNIA DOS IMIGRANTES ALEMÃES​​​​​: COMO O CHURRASCO SE ENCONTROU COM A SALADA DE BATATAS

O Rio Grande do Sul é terra de diferentes que colaboraram entre si, quase sempre por absoluta necessidade. Assim, hoje, o churrasco e a salada de batatas tornaram-se comidas típicas, unidas. A linguiça se misturou ao charque. O espero recebeu o suíno e o repolho e rabanete estão nos CTG’s.

27/09/2025
Porão do Antiquário Hamburgo Velho, rua General Daltro Filho n°810, Hamburgo Velho, Novo Hamburgo-RS
⏰Início da roda de conversa às 15:00
ENTRADA FRANCA

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CONVERSA DE PORÃO, EDIÇÃO I, 2025     PROMOVIDA PELO ANTIQUÁRIO HAMBURGO VELHO     MATERIAL SELECIONADO E APRESENTADO POR NEUSA STOFFEL

ASSUNTO DA I CONVERSA DE PORÃO: COMO O CHURRASCO ENCONTROU A SALADA DE BATATAS       O gaúcho na colônia alemã dos imigrantes

O GAÚCHO DO VALE DO SINOS, ONDE ESTAVA?                                         As margens dos rios do RS eram zonas de pecuária, inicialmente povoadas por portugueses. Os gaúchos dos pampas do sul eram importantes. 

Também para cá foram atraídos os povos jesuítas na dispersão.

Contudo, os gaúchos que mais conviveram com os imigrantes alemães foram os que estavam estabelecidos nos Campos de Cima da Serra, região de São Francisco. Estes para lá tinham ido por uma ruptura de costumes: foram os que desejaram estabelecer família, e elas longe das guerras. Estes campos permitiam a pecuária, atividade em que eram especialistas. 

Eram estes que circulavam como tropeiros, trazendo rebanhos rumo à capital. Antes, acampavam em Campo Bom (motivo do nome desta cidade) onde os rebanhos eram engordados para seguir para venda. Vivendo na vizinhança do Hamburger Berg, conviviam e negociavam. Bem cedo a região alemã inicia matadouros e curtimento do couro deste abate. 

Duas ‘novidades sociais’ em construção na época: gaúchos com família e endereço fixo e alemães  proprietários de terras. E interagindo por necessidades óbvias. 

 

ACORDOS DA  COLÔNIA ALEMÃ INSTALADA

Recém comemoramos (2025) o bicentenário da colonização alemã. Portanto, esta história inicia em 1825. 

Os alemães foram instalados do lado do Rio do Sinos não ocupado pela pecuária. Aliás, a pecuária estava proibida oficialmente para estes imigrantes, trazidos para a agricultura. Permitia-se a eles apenas reses da lida e subsistência. 

Como os alemães chegam à região em risco de guerra, atrasam-lhes a entrega até de ferramentas prometidas. A necessidade de facões e enxadas pode ser minimizada com o que gaudérios providenciam para eles, junto com a venda dos primeiros animais. E alguns aprendem deles técnicas rudimentares de funilaria, até para pregos rudimentares que a construção exigiria. 

Detalhe: Entre os imigrantes há os que já chegam ‘mascarados de agricultor’, mas já planejando iniciativas empreendedoras no Novo Mundo. Essa diferença de interesses e de recursos financeiros trazidos ao Brasil dita destino das diferentes famílias recém-chegadas. Exemplo: novas balsas são logo contruídas por alguns alemães com lotes ao lado do rio e isso aumenta o transporte para a capital. 

Exemplo particular: meus descentes Weiermuller (lote no alto de Sapitanga) foram exclusivamente agricultores. Já os descendentes Dietrich (lote entre Estância Velha e Ivoti) dedicaram-se, além da agricultura, à produção de rapaduras, melado de cana, cachaças e chimia de cana. 

É impressionante observar as listas de negócios na Exposição Estadual na virada do século, pela variedade de empreendimentos da Colônia Alemã e quantos destes têm como clientes potenciais os que vivem da pecuária da época. Conversamos ao analisar estas listagens publicadas em livros de Felipe Kuhn Braun. 

Importante: 1825 é anos da chegada dos primeiros imigrantes oficiais. Várias outras levas os seguem e muitas famílias vêm informados das oportunidades por cartas. E estes chegam com mais  capital para serem empreendedores ou associados para os empreendedores iniciais. 

 

GAÚCHO: ORIGEM DO TERMO

É polêmico, mas um das hipóteses é que filhos de indígenas com espanhóis e portugueses, na adolescência, ao desenvolverem pelos no corpo eram discriminados pela tribo e ficavam como “guachos”, animais desmamados, sem família. E partiam na primeira oportunidade, distribuindo-se pela região sul do Brasil.  Nômades, agregados, carregando a vida no lombo do cavalo, dormindo ao ar livre, ao pé do fogo. Adiante, em muitos desperta o desejo de um lar e de relações mais estáveis. 

O Antiquário Hamburgo Velho comercializa produtos estilo gaudério desde a sua fundação. Percebemos a adaptação de utensílios das cozinhas para as carroças e vice-versa. Observamos um torrador de grãos do nosso acervo. 

A LIDA CAMPEIRA DO GAÚCHO  INCLUI: 

Comidas ao fogo sem fogão, como o churrasco, linguiças           Comidas menos perecíveis, como charque, rapadura, amendoim, farinha de mandioca, melado, etc  Bebidas que aquecem: chimarrão, aguardente, café                               Louças que não quebram: latas, esmaltados               Roupas multiuso: palas, chapéus, botas                                          Utensílios para seu melhor amigo, o cavalo

CARACTERÍSTA DO POVO ALEMÃO: observador                    Logo perceberam oportunidades e desenvolveram produtos muito criativos.   Até quem foi às guerras, observou e referenciou para a criação de produtos que atendessem necessidades da época.

LISTA DE PRODUTOS À VENDA NA COLÔNIA ALEMÃ ANTES DE 1.900

No livro Histórias de São Leopoldo (Braun e Blume) verificamos vários: cordas, botas, chapéus, guaiacas, arreios, esmaltados, latas, pomadas e unguento, sabão, velas, óleos de lampião, chimias, rapaduras, farinha de milho e mandioca, cachaças, vinagres, licores, conhaques, vinho de mel, copos de madeira e taquara, cervejas, fumo de rolo, banha de porco, munições. Olarias, ferrarias, selarias, tipografias, moinhos e comércio de secos e molhados aumentaram muito pós imigrantes. Mesmo a pecuária se desenvolveu, além da produção de armas e ferramentas. Rebolos, fumigadores contra formigueiros, arados, plantadores de sementes e até venenos especializados. 

NESTA CONVERSA DE PORÃO ANALISAMOS ESTA LISTA E SUA RELAÇÃO INTERESSANTE COM AS NECESSIDADES DOS GAÚCHOS. CERTAMENTE A COLÔNIA SE PREPARAOU PARA ATENDER ESSE TIPO DE COMÉRCIO E LUCROS COM O QUE APRENDEU COM ELES. ESPECIAL ATENÇÃO AOS CURTUMES DO VALE DO SINOS E A PRODUÇÃO DE CALÇADOS, INICIALMENTE MAIS RÚSTICOS. 

DURANTE ESTA CONVERSA DE PORÃO também comentamos a existência de esconderijos nas casas do Hamburger Berg, inclusive nesta onde está o ANTIQUÁRIO Hamburgo Velho e na de familiares de uma senhora presente. Serviam para esconder moças e rapazes quando os exércitos passavam. 

É relato de meus antepassados que as famílias que produzissem produtos que a guerra exigia evitavam que seus filhos se tornassem soldados. Contribuindo dessa forma, mesmo que não recebendo preço justo ou até sem pagamento, mantinham a família reunida. Esse parece ter sido o motivo de se dedicarem à produção de cana de açúcar e porcos, pois os produtos feitos com isso iam para a guerra.

Outro assunto foi a técnica da produção de esmaltados e de cerâmica vitrificada, com relatos ainda vívidos sobre parentes que trabalharam neste tipo de empresa, inclusive das doenças enfrentadas. 

 

A LINGUAGEM  UNE CULTURAS SOB PRECONCEITO

O dialeto hunsrich e o ‘gauchês’  sobreviveram aos tempos no Vale do Sinos. Nos perguntamos como teria sido o esforço de comunicação entre gaúchos e imigrantes. Músicas gaúchas de versos curtos eram facilmente memorizáveis e palavras novas iam sendo assimiladas, especialmente termos sobre a natureza e o trabalho. Nômades, frequentemente com sotaques e cadências diferenciadas,   aperfeiçoam linguagem gestual e mímica e isso é útil para conversas com quem só fala a língua alemã. 

A MÚSICA GERA AFINIDADE ENTRE ESSES POVOS

Gaúchos e alemães cultivam a música e gostam de dançar. As danças gaúchas são animadas e otimistas e com distanciamento corporal respeitoso e aceitáveis nas colônias alemãs. Os gaúchos usam instrumentos musicais de fabricação mais simples (flauta e violas) do que violino e pianos da Europa e o intercâmbio de sonoridades afina as diferenças.

GAÚCHOS PODEM ENSINAR SOBRE ANIMAIS DA LIDA

Os imigrantes precisaram adquirir animais e o aconselhamento sobre as diferenças entre as raças da Europa e dos pampas. Gado crioulo, vacas mais leiteiras, porcos mais rústicos, espécies de aves mais resistentes eram assuntos necessários e informações valiosas que foram trocadas espontaneamente.  

Culturas vivendo em farta troca de saberes úteis: diversidade de árvores e madeiras, uso de casinhas de defumação para linguiças, fornos para fumo, cultivo de erva-mate, sementes melhor selecionadas, melhoria de mandiocas por troca de ramas, receitas com plantas nativas como inhame e cará, etc.

CURAS  NATURAIS

Na pobreza, a fitoterapia é riqueza. E os imigrantes precisaram trocar muitos conhecimentos diante de uma flora diversa nas novas terras. Gaúchos tinham informações úteis e seu caráter generoso permitiu o intercâmbio de valiosos conhecimentos. Ensinavam aprendendo e replicando saberes (e mudas) por diferentes regiões do sul do Brasil. 

NOTÍCIAS E HISTÓRIAS

Gaúchos são lembrados como quem podia ‘contar causos’, falar do passado da Nova Terra, relatar o que outros imigrantes estavam implementando, noticiar festas e lutos e testemunhar a idoneidade comercial de vizinhos. Uma vantagem inequívoca: por eles chegavam as notícias e as informações que não vinham com o viés do governo e da religião. E o Vale recebeu muitos imigrantes politizados, de reacionários a revolucionários. 

Nesta CONVERSA DE PORÃO, recolhemos lembranças de conversas sobre avisos familiares repartidos na convivência com os gaúchos. Segue o resumo destas importantes memórias que analisamos juntos: 

RISCOS EMBUTIDOS NESTA CONVIVÊNCIA DE GAÚCHOS COM IMIGRANTES

Gaúchos vistos como homens menos religiosos ou de ‘religião misturada’.  Possibilidade de sedução das mulheres por homens que não lhes ofereceriam casamento. Risco de sedução política ou de jovens para a vida mais aventureira. Gaúchos com hábitos nem sempre aprovados, como fumo, cachaça, cusparadas, palavrões, uso de facas e armas de tiro por homens alcoolizados que provocavam facilmente brigas nos lugares públicos como bailes. 

Eram homens necessários, mas que pediam hospedagem em casas onde não poderiam proteger a intimidade das famílias. Muitos não escondiam ser contra o imperador.

Afinal, gaúchos não eram nem índios, nem espanhóis, nem portugueses, nem negros. Altamente miscigenados. Tinham no sangue o novo povo brasileiro e a coragem de viver bem apesar dos múltiplos preconceitos regionais. 

A empatia da pobreza e do preconceito entrelaça-os e hoje vemos um dos resultados na comida típica do RS moderno. O Churrasco encontrou a Salada de batatas.

Aliás, a salada de batatas de tempos antigos era diferente, com um molho branco avinagrado. 

Os CTGs receberam o porco no espeto e os vegetais típicos dos alemães (repolho e rabanete) estão lá servidos em cada encontro. 

Analisamos algumas fotos do acervo de Felipe Kuhn Braun

Churrasco, em tempos em que não eram comuns os açougues, eram encontros festivos muito especiais. Eram mais comuns nas guerras, quando o boi era morto, independente do dono, para alimentar soldados. Na colônia alemã, passam a acontecer em encontros masculinos, celebrações de empresa, em clubes. Adiante em pique-niques, quermesses, inauguração de igrejas, etc.

Chimarrão em cuias pequenas, estilo uruguaio

Reparemos nos espetos de galhos de árvores e no estilo dos chapéus dos assadores

Churrasco em estilo campeiro

 

Já toalhas em mesas menos frugais, à sombra das taquareiras. 

 

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Já servido como ‘espeto corrido’. 

 

Quando os churrasqueiros são também os que carneiam o boi

 

Mulheres ausentes, ou talvez reunidas em separado. Aqui os espetos já evoluíram para produtos comercializáveis. 

Rejane Grin relatou nesta CONVERSA DE PORÃO que seu pai e tio eram churrasqueiros famosos no Vale do Sinos e muito requisitados. Uma tia dela era uma exceção: assava churrascos para a família e isso era uma atividade mal-vista na vizinhança, apesar do resultado ser saboroso.